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NÚCLEO TÁVOLAINSTITUTO DE PESQUISA EM PSICANÁLISE / INFORMACÕES: (16) 3623-5786 / nucleotavola@gmail.com / Ribeirão Preto-SP-Brasil April 05 TRABALHO E SUCESSO
TRABALHO E SUCESSO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Em nossos tempos uma curiosa mudança vem se operando. Trata-se da relação entre o trabalho e o sucesso que me parece importante investigar, na medida em que uma certa desconexão contemporânea entre os termos não deixa de nos causar perplexidade. Desde a revolução francesa e norte-americana, para marcarmos o tempo de uma virada histórica que irá imprimir uma relação entre trabalho e sucesso absolutamente original, qual seja, a idéia de que o trabalho e o mérito irão definir o sujeito da modernidade, passando a ser considerado como um dos pilares constitutivos de sua identidade narcísica, algo bastante diferenciado da ética anterior que o via como algo destinado ao sujeito pelos azares de seu destino, na medida em que não fazia parte de uma nobreza aristocrática, o que o lançava inevitavelmente na “tortura” de ter que trabalhar. Com o advento da modernidade, com sua ética do mérito pessoal, o trabalho passa a ser valorizado enquanto possibilidade de um vir a ser absolutamente impossível na antiga ordem, em que os lugares passíveis de serem ocupados pelo sujeito são definidos em termos de sua pertinência, no mais das vezes em termos de nascença, a um clã, tribo, família, dentre outros. Em outras palavras, a pertinência do sujeito era fixada desde sempre e para sempre, de forma que o trabalho enquanto também fornecedor de parâmetros identificatórios ao sujeito certamente não fazia ali sentido algum. No momento histórico que mencionei acima tudo muda no que diz respeito ao valor do trabalho humano. A modernidade, dentre outras de suas premissas éticas, imprime o sentido do mérito, do valor da atividade humana singular sobre o mundo, sua capacidade de intervir e fazer alguma diferença em um mundo onde as referências fixadas sobre o sujeito não tem mais nenhum valor no que tange à possibilidade de o definir. Esse elemento é fundamental porque nesse momento, de modo inédito, se torna concebível a idéia de um vir a ser constante do sujeito, construção por vir, invenção e reinvenção de si estimulada por uma modernidade cultural que abre o mundo ao antes impensável. Podemos, dessa forma, imaginar o quanto a angústia se tornou nossa companheira leal enquanto marca de uma impossibilidade de acreditar em uma definição exaustiva de si-mesmo, em uma inscrição cultural que aponta o sujeito humano enquanto processo, enquanto movimento de si sobre si... Angústia que aponta para essa insuficiência de uma representação última de si, exaustiva do sujeito. Ficamos na vivência de algo não representável, algo que não conseguimos dizer, que parece fazer parte de um movimento interno que talvez somente podemos representar à posteriori... Dentro desse escopo ético da modernidade em torno do trabalho, a idéia de sucesso sempre esteve associada ao que a palavra significa em uma primeira acepção, a idéia de uma sucessão, em que os efeitos da intervenção do trabalho de cada um no mundo e no outro crie um efeito que em muito ultrapassa as intenções manifestas do autor da intervenção; associada também a uma obra que sobreviverá a seu autor, uma herança posta ao mundo pela presença, pensamento e ação de um ser humano. Como podemos perceber, a acepção de sucesso esteve sempre associada à durabilidade de uma obra, significado que podemos contrastar com o que nos é passado como sucesso hoje! A idéia de sucesso parece envolvida por todo um conteúdo ideológico contemporâneo marcado pela futilidade das obras, das falas, do pensamento e das ações que, paradoxalmente, são as marcas do que é sucesso. Que sucesso é esse onde a descartabilidade quase imediata, ditada pela moral do espetáculo e da cultura das celebridades, marca a “autoridade” de um trabalho? Não podemos assim nos espantar que nosso vinculo com o passado esteja tão comprometido, em uma cultura onde o sucesso é função de sua negação de qualquer memória. Talvez não sejamos sucedidos...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto milannovaes@gmail.com
FRAGMENTOS DO TEMPO
FRAGMENTOS DO TEMPO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Pensei nesses últimos dias nos fragmentos dos tempos que nos passam à mente quando nos encontramos com quem parece não podermos mais ter algo além de uma cortante sensação de nostalgia, de um tempo onde o tempo não parecia existir, onde qualquer coisa era tudo, onde na presença de alguém temos uma espécie de um profundo pesar, mesmo com quem onde nossa memória nos aponta que o que podia ser vivido assim o foi! Talvez precisemos perceber de quanto de muitas mortes somos os sobreviventes ao longo de nossa vida, de quantos tempos somos as testemunhas, de quantos esquecimentos somos os únicos a nos lembrar... Nossa vida enquanto tributo a um passado que, em sua eficácia psíquica, não podemos nos lembrar. Lembramos assim de tudo que pareça não nos colocar algo de uma estranheza de nossa história, uma história que não conhecemos, no que ela nos atinge, para além do que podemos contar. De quanta mediocridade, de quanta abdicação e covardia somos feitos, resultados que somos de uma história que nos paralisa no ponto mesmo onde ela em nós se realiza, no ponto onde não mais podemos dizer de nós com tanta e tediosa familiaridade, vivendo e morrendo da gosma de certezas sobre nós mesmos que irão algum dia nos afogar, fazendo com que as descrições que podemos dizer sobre nós sejam as últimas possíveis, ditos e desditos que acreditamos nos esgotar. Na relação com o outro, não nos relacionamos apenas com uma outra pessoa, mas de muitas formas com reminiscências, com ecos de outros tempos, que estão presentes em nosso psiquismo, o outro se constituindo como uma espécie de passagem a um outro tempo; que tempos passam pela relação que temos com esse outro? Fragmentos do tempo, em cada vinculo amoroso onde colocamos algo, mesmo que não saibamos, de nós mesmos, tempos do que poderíamos ter sido. De algo que pode existir somente em relação ao um outro ... Desde o Banquete de Platão, a natureza do vinculo amoroso é um grande enigma, enquanto questão de por onde ele possui tal valor psíquico ao sujeito; enquanto grandes perguntas mesmo sobre o porquê nos perguntamos sobre o amor, enfim porque ele é um tema de tal importância ao humano. Somos sobreviventes de lutas internas frente a algo que sobreviveu, como nós, a um passado, atuando e nos colocando dentro de cenas que articulam nossos fantasmas e que nos fazem responder, na relação com o outro, desde um outro lugar no tempo que aparece à consciência enquanto um pedaço, um fragmento da história, traços que nos aparecem enquanto sensações, por assim dizer, de uma estranheza que nos diz de nossa separação do que nos constituiu enquanto humanos... Penso que o vinculo amoroso nos traz a experiência de um tempo outro, onde ainda não nos lamentávamos do que já foi, na medida em que quando apostamos na experiência amorosa apostamos também, sem dúvida, no que ainda pode ser, na virtualidade de tempos outros que sempre operam no psiquismo. Assim, no que diz respeito ao tempo, temos encontros com o outro na vida nos quais podemos ter a experiência de um certo retorno, de algo que parece reaparecer. Quando me refiro à idéia de um fragmento, me refiro á vivência humana de uma não possibilidade de totalização da experiência de si - mesmo, da angústia de perceber que grande parte do que somos, e que não sabemos ser, permanece enquanto fragmentos, traços de uma história por acabar... Triste nos darmos conta que buscamos essa totalização sem que nos demos conta de que nossa fragmentação é o que nos garante que experienciemos aquela estranheza que pode, de alguma forma, nos mostrar que o narcisismo que buscamos sustentar a qualquer custo talvez possa ser ancorado em outros elementos que não esses que nos levam a adoecer. Pena que demoremos tanto a aprender tal lição sobre o psiquismo e com que sofrimento necessário à tentativa de não sofrermos de maneira alguma.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto milannovaes@gmail.com
A DELINQUÊNCIA DOS BEM-NASCIDOSA DELINQUÊNCIA DOS BEM-NASCIDOS
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Delinqüência é algo que estamos vendo constantemente e infelizmente também aumentando de uma forma que nos desafia a pensar no que em nossa cultura possibilita e favorece tais posturas. Vemos hoje jovens das chamadas boas famílias agindo no mundo com estranha mescla suicida com uma arrogância que a muitos assusta. Parece, ao vermos tais posturas, que os jovens das classes média e alta dos grandes núcleos urbanos no país deixaram de poder ver algo mais que sua procura por certos prazeres financiados por dinheiro fácil promovido por pais que barganham sua culpabilidade e pusilanimidade por um talão de cheques polpudo. “Não me perturbe, te dou tudo”, parecem dizer... Na medida dessa abdicação parental, condicionada pelo que parece uma vergonha em não ter algo mais a oferecer que não sua própria auto-absolvição pela via do talão de cheques, sem poder competir em sua possibilidade de autoridade com a expressão máxima da autoridade contemporânea, qual sejam as celebridades e os chamados experts, os pais parecem ver sua única saída, em sua impossibilidade de acreditar que ainda tenham algo a dizer aos filhos, em uma vulgar busca de moldagem caricatural de si - mesmos como, por assim dizer, adolescentes de última hora. Não tendo mais nada a dizer a acrescentar em uma relação pai e filho, parecem buscar a tentação de uma equalização forcada a quem precisaria algo mais do que uma relação simétrica entre amigos, seus próprios filhos. Pais não são amigos, parecemos esquecer. São bem mais do que isso, ou talvez devessem ser! Dessa forma, o pavimento para o inferno está pronto. Pais ausentes, preocupados em um provimento “material” dos filhos, com os quais sentem não ter mais relação alguma a incrementar que não seja pela via de um aumento de tal provimento, oferecem em sua ausência caminho sem resistência ao grande mercado que tornou a adolescência algo profundamente lucrativo, com suas próprias “demandas” de mercado, demandas que definiriam o jovem em torno de imagens e objetos definidos pela própria mídia que se coloca como o grande catalisador que define o que será o que em tal mercado. Em um ambiente cultural onde a hipocrisia domina, queremos com todas as nossas forcas que a paz possa existir, mas de maneira alguma pensamos nas complexidades da idéia de justiça. Pedimos que a lei seja respeitada, que a policia atue no sentido de inibir a bandidagem, no entanto não nos damos conta que somos cúmplices de uma delinqüência que começa na fila dupla na porta da escola dos filhos ou no semáforo desrespeitado com “justificativa”, enquanto a insegurança campeia pelas ruas do país... A delinqüência no Brasil começa cedo, quando passamos a acreditar de muitas formas que nossos filhos podem tudo, na medida em que tememos que possam não mais nos amar; acreditamos assim que a melhor maneira para que não sintam que existimos seria nosso sumir completo enquanto autoridade possível para nos tornarmos simpáticos amigos, em uma simetria de relação que acaba por privá-los de algo fundamental, a presença parental. A covardia e cooptação parental ao universo do consumo midiático, na esteira da eterna adolescência, que nos fizeram sem dúvida transferir o que poderíamos dizer aos nossos filhos a um outro, outro midiático que somente se dirige a eles no intuito de vender algum produto. Nesse universo, como nos espantarmos que a delinqüência arrogante dos bem-nascidos comece onde o outro, que não esteja no catálogo midiático do que seja invejável seja automaticamente desprezado. No Brasil parece que o desprezo que atenta contra a vida encontra uma indulgência assustadora, como se justificássemos tal atitude com a postura de pensar que devem ser preservados sempre, futuro que são. Dessa forma vamos sonhando em pedir a Xuxa que nos ajude a cuidar de nossos filhos, não é? Quem sabe ela nos ajude...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
March 09 PACTOS DESTRUTIVOS
PACTOS DESTRUTIVOS
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
O filósofo J.J.Rousseau nos propôs a idéia de que o homem se vincula a outro homem e com a sociedade na crença de um bem comum, algo que possa lhes unir em torno de um pacto social tácito em que cada um ficaria melhor se obedecesse às regras desse pacto comum, no qual todos se beneficiariam de uma união onde todos trabalhariam pelo bem comum, acredittando que uma garanttia geral lhes seja oferecida quando todos supostamente fazem sua “parte” no contexto de um corpo geral, onde cada um seria parte de uma espécie de uma máquina azeitada distribuindo seus efeitos a todos os “membros’”... Foi Sigmund Freud, pela via da fundação da psicanálise, quem nos apontou algo do humano que não estava previsto nos manuais do bem-viver filosófico reinante até então, marcando de modo inédito o fato de que podemos, sem dúvida, nos unir a um outro com sentidos destrutivos que nossa consciência não avalizaria. Sempre temos em mãos justificativas para continuar em certas dinâmicas de relação onde nossa destruição aparece como algo a se cumprir, uma espécie de destino pessoal onde deveríamos, por assim dizer, pagar alguma coisa... Em outras palavras, a psicanálise nos traz a percepção de relações humanas nas quais a idéia de bem comum não cumpre o papel que supomos. Assim, o que podemos dizer dos modos como certas relações se estabelecem nas quais a destrutividade marca seu papel? Porque somos, por assim dizer, tão atraídos pela busca de um certo inferno pessoal, na qual o amor ocupa um lugar tão importante? A psicanálise nos traz a percepção de que, para mais além da visão de Rousseau, cultivamos relações com o outro onde um sentido de destrutividade está presente, nos mostrando o fato psíquico afetivo perturbador que afirma que somos capazes de obter gozo através de relações que, para se consolidarem, implicam destrutividade em relação a si-mesmo. Difícil aceitar esta hipótese de que estabelecemos amores no sentido mesmo de encontrarmos determinadas dores... Como assim? Todos nós, de muitas formas, não buscamos o chamado melhor a nós mesmos? Toda a felicidade, dentre outras coisas! Dessa maneira, com honestidade intelectual, vamos nos apercebendo de que as relações densas no que tange à afetividade não possuem esse caráter inequívoco que gostaríamos ingenuamente que existisse. Pelo contrário, são prenhes de contradições que as definem em termos dos impasses que nela se repetem... O que busco levantar aqui não me parece novo aos amantes, que não mais podem diferir o que de erro existe em seu relacionamento, como uma eventualidade, dos impasses que também parecem definir o que dele parece ser uma “delícia de dor”. Em outras palavras, quanto do romantismo amoroso parece baseado em nosso aprendizado emocional que nos diz que amar significa um muito específico sofrimento. A cada um de nós, que espécie de sofrimento nos garante o saber de estarmos amando? Será necessário para podermos crer que amamos que ainda sejamos capazes de sofrer ainda mais,? Enfim, quanto de uma realização masoquista envolve o estar amando, quanto de poder nos destruir traz algo de um gozo ao amor, difícil de definir, mas preciso ao dizer ao sujeito: Você ama na medida em que percebe estar vivendo uma forma de sofrimento somente permitida, e porque não dizer desejada, em relação ao outro amado e ninguém mais. Pequena tragédia pessoal o tal do amor, onde a loucura de si aparece como autorizada nas dores e delícias amorosas. Dores tão difíceis de superar na medida mesmo em que nos reconhecemos como nós mesmos também pela forma como sofremos. Não é fácil assim abandonarmos formas de sofrer. Mas que disse que seria?
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto milannovaes@gmail.com S February 17 SE MEU FUSCA FALASSE...
SE MEU FUSCA FALASSE...
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Se meu fusca falasse! Herbie, o “carrinho” do filme de Walt Disney dos anos 60 ainda me vem à mente, convergência de tempos, tempos onde nas aventuras do fusca encontrávamos algo de uma identificação, um descompromisso terno que parecia a imagem mais acabada do que significava ser criança. A ternura e espontaneidade encontradas em um carro, a criança que o fusca era nos dizia isso. A lembrança primeira de suas cores, da perplexidade com que o via se mover sem motorista, seu “temperamento” e sua solidariedade às idas e vindas da vida de seu proprietário, o número 53 que jamais esqueci. Ele parecia falar. Só faltava falar, falamos. Dizia isso, mas parece-me que dizia mais... Sem dúvida, pode dizer mais; Na medida em que escrevo, percebo que o próprio título deste artigo é o que de fato me chamou a falar disso. Do filme, do fusca? Sim, mas também de algo mais. Falar do alcance do significado da expressão: Se meu...falasse! Meu o que? Como o fusca do filme, penso que com essa pergunta podemos nos referir ao objetos de nossa história de vida que, de formas muito específicas, passaram a ocupar um lugar emocional tanto mais importante na medida mesmo em que não o conseguimos avaliar em sua totalidade. Dessa forma, nossa vida emocional é recuperada através de memórias que estão por assim dizer instaladas, embutidas em objetos que de alguma forma nos encontraram em nossa vida. Digo nos encontraram para marcar a impressão de que o efeito emocional que o resgate de memória através desses objetos nos parece quase como que um atropelamento pelo passado, O fusca Herbie traz algo, a impressão de abertura de certa memória, conquanto ao mesmo tempo a encobre, fazendo-se símbolo de alguma coisa a que simultaneamente exprime e esconde... Percebemos assim que em nossa vida psíquica os objetos passam a ter um valor simbólico, presentificando uma ausência no tempo, valor esse que depende certamente dos campos afetivos a ele ligados. Pergunto-me sobre o que lembrava ao evocar a figura do fusca Herbie? Que lembranças embutidas se põem ao nos lembrarmos de algo. Será que nos lembramos de algo para nos esquecer de algumas coisas? Essas perguntas desde sempre constituíram enigmas para a psicanálise, na medida em que ela é uma imensa teoria sobre a memória e os usos psíquicos do esquecimento. A psicanálise nos mostra que a lembrança e o esquecimento são funções de processos mentais dinâmicos que condicionam suas possibilidades. Esquecimento como efeito de processos psíquicos que visam à constituição e preservação da estrutura do eu; amnésia como oceano que cerca a ilha de nosso eu. Somos habitados por muitos tempos, tempos outros que nos aparecem com frescor pela via de objetos tornados símbolos, trazendo algo consigo, ou mais precisamente nos levando a algum lugar dos tempos que nos habitam. A memória nos carrega na inundação das intensidades afetivas que veiculam, vindas sabe-se lá de que grotões de nosso psiquismo e seus tempos. Somos seres de evocação de memórias, no interstício entre o passado e o futuro. Todos esses símbolos contam de modo tortuoso a história do como nos capacitamos a amar, amor no sentido de Eros enquanto aquele que une, une lembranças que fazem de Herbie um certo símbolo. Somente Eros é capaz de fazer de um objeto um símbolo. Amar é lembrança em ação. De meu amor a tudo serei atento, como nos alertou o poeta. Dessa maneira, parodiando o título do filme, podemos sem dúvida dizer: Se minha memória falasse...Talvez pudesse me dizer por onde agem seus conteúdos em nosso psiquismo, porque é disso que se trata, da ação da memória no que podemos vir a sentir ou não. Nós e onde a nostalgia nos leva. Saudades... Herbie e Michelangelo. Parla! Fala comigo!
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
February 10 O REBAIXAMENTO DO OUTRO
O REBAIXAMENTO DO OUTRO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
O que podemos pensar quando percebemos que em nosso país formadores de opinião se comportam do modo mais leniente, com justificativas intelectuais das mais elaboradas, frente a toda uma gama de atitudes dos sujeitos que parecem significar que perderam, ou mais provavelmente talvez nunca tenham tido, qualquer apreço pelo outro no que tange ao seu estatuto de humanidade, do valor de sua diferença nos encontros que o imprevisível da vida promove. Pergunto como fomos chegando a esse ponto da maneira mais desavisada e mais cândida? O que podemos esperar quando o outro, enquanto partícipe fundamental do estar no mundo dos sujeitos humanos vai sendo sempre mais posto em uma posição absolutamente desqualificada enquanto produtor de desafios ao sujeito, desafio posto pela diferença que nosso narcisismo sempre tenta contornar tornando esse outro familiar. O que hoje vemos como tendência dominante na familiaridade que o outro assume aos sujeitos? Enfim, como o outro predominantemente é cooptado pelo psiquismo do sujeito? Sem dúvida, como algo potencialmente hostil, algo que parece em nada trazer a vida, algo que teríamos que tolerar, uma espécie de mal necessário! O que podemos depreender dessa situação cultural atual no que tange ao outro? Que ambiente criamos ao rebaixarmos a importância do outro dessa forma? Se somos seres relacionais, nascidos a partir de certas relações com o outro, onde será levado o sujeito moderno em um ambiente onde esse outro aparece meramente como um estimulo persecutório? Será coincidência a importância das fobias de toda ordem dentre as formas predominantes de sofrimento psíquico hoje? Porque o medo se tornou o afeto predominante nas relações humanas? As perguntas acima são apenas algumas de muitas outras que poderiam marcar algo de nossa perplexidade frente ao que ocorre hoje no campo relacional dos sujeitos com o outro, ou talvez seja melhor dizer sem o outro... Em outra oportunidade, marquei os impasses da vivência amorosa contemporânea, em que o amor parece ser o único ideal ainda passível de nos redimir e por outro lado parecemos acreditar que seria desejável e possível amar sem a participação do outro! Ao longo das últimas décadas, pudemos perceber grandes mudanças no que diz respeito ao valor das relações humanas para os sujeitos na cultura contemporânea. Essas mudanças trouxeram o outro para um lugar de importância bastante secundária nas crenças que o sujeito narcísico de nossa época tem de si e do mundo que o cerca. Parecemos nos comportar como eternos credores de um mundo que nos nega, habitado por outros cuja participação em nossa vida temos extrema dificuldade em valorizar, na medida em que o significamos no mais das vezes como aquele que impede algo ao narcisismo do sujeito. A abissalidade da diferença posta pelo outro sempre põe estranhamentos e desafios ao sujeito, que nas tentativas psíquicas de inserir esse outro no seu campo já constituído de crenças e familiaridades encontra oportunidade de questionamento daquelas crenças e certezas. No entanto, na relação com o outro em nossa modernidade, como já apontei, o sofrimento advém do amor narcísico a um campo de certezas que a presença do outro sempre questiona, de uma forma ou outra. O sujeito contemporâneo se comporta como se perguntasse ao Destino: porque quem não sou eu existe? O que é isso? Que brincadeira é essa de um mundo que se põe como desafio? Isso só deve acontecer comigo! Que azar o meu!... Perdemos nesse posicionamento o aprendizado fundamental sobre a importância do amor, e do outro nele, no que tange ao enfrentamento da maior decorrência hoje do ambiente que procurei descrever, qual seja a mediocrizacao cada vez maior do campo de vivencias emocionais possíveis ao sujeito, que empurrado pelas fobias cotidianas, dorme com o medo, vive para o medo, santificando um eu esterilizado em sua luta inglória contra um mundo sem coração...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
February 04 CULTURA E ESPÍRITO DE GUETO
CULTURA E ESPÍRITO DE GUETO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Em artigo anterior, abordei o incremento moderno da busca pelos sujeitos de encontro de representações últimas sobre si, oferecidas por discursos que procuram demarcar grupos de pertinência de qualquer natureza. Busquei apontar o profundo equívoco da adesividade a tais representações, no sentido de fazer delas a palavra derradeira sobre o sujeito, esgotando a pluralidade e a dinâmica constante de fabricação de significações que constituem a vida psíquica humana, em seu sempre devir. O que me refiro aqui como espírito de gueto se refere a essa busca de espaços de pertinência que se pretende ofereçam ao sujeito amparo último para sua constituição de identidade. Sem dúvida, necessitamos de amparos e espaços no que tange a nossa formação de identidade; no entanto, aponto o equívoco de nos fixarmos em qualquer representação sobre nós mesmos que supostamente nos esgotem, que pareçam dizer tudo sobre nós mesmos. Que imenso sonho é esse! Dizer tudo sobre nós mesmos; encontrar algo que nos totalize, que nos abarque. No entanto, parece ser isso que estamos presenciando atualmente, conquanto a concepção de cultura se reduziu à marcação de uma especificidade grupal de qualquer ordem, se tornando simplesmente marca e sinônimo de alguma comunidade, agremiação, grupo ou seja lá o que for. A cultura humana diz respeito ao conjunto de bens simbólicos, dentre outros, produzidos pela sociedade no sentido de preservá-la no tempo. Cultura humana tem assim uma relação umbilical com a idéia de tempo, da possibilidade de um futuro, de uma certa imortalidade, tendo como pano de fundo a condição humana da mortalidade de cada um de nós. Cultura nos remete assim a formas específicas e ritualizadas de memória, no sentido de manutenção no tempo do que já se foi. A cultura nos aponta que nossa vida somente pode ser estendida no tempo, por assim dizer, pela via da memória do outro. Homero e outros escritores e poetas na Grécia antiga imortalizaram em sua escrita feitos históricos que certamente se esfumaçariam no tempo, sem memória... Essa relação fundamental de toda cultura com o futuro, cultura que busca de muitas formas imortalizar o passado, é crucial na medida em que não faz sentido a idéia de cultura que não tenha relação com a manutenção de algo para a posteridade. De toda maneira, a relação da cultura com o futuro se complica se pensarmos que não basta nesta relação manter algo, mas sim de que forma algo que já existe possa se relacionar com aquilo que está por vir. Cultura humana diz respeito, assim, às condições que possuímos no sentido de acolher e apostar em um porvir, do que virtualmente pertence ao futuro, mas não um futuro cronológico em algum lugar que nunca chega, mas pelo contrário no que se põe na realidade de todo dia de nosso presente, na forma da esperança de poder pensar, acreditar e acolher o novo, o que deriva de uma cultura presente que muitas vezes não pode aceitar o que ela mesma criou, em termos de condições de um nascimento... O espírito de gueto parece sempre ver no futuro o pai de algo bastardo, que não podemos reconhecer em alguma relação conosco mesmo, com a resposta de angústia, violência e persecutoriedade na apreensão do novo pelo instituído da cultura. Busca assim justificar seu fechamento ao mundo no sentido de preservar uma certa cultura; olhando mais de perto podemos perceber o quanto o discurso lírico e de sandálias do gueto visa à manutenção narcísica de seus “membros”, caminhando contra o melhor do conceito mesmo de cultura, qual seja, sua possibilidade de pensar, enfrentar e acolher um futuro que nunca sabemos exatamente qual será. Não existe vida cultural fecunda onde o amor possível ao outro e sua diferença ceda seu lugar ao amor a nosso umbigo, que vemos como depositário fiel de um passado que pensamos nos definir enquanto sujeitos, sem nos perceber enquanto seres em trânsito, entre o passado e o futuro...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
January 22 ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA
ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Hoje muitas pessoas nos questionam na clínica e no cotidiano com perguntas como: “O que acontece com nossos jovens?”, “Porque tanta violência?”, “Não percebem que o tempo de rebeldia sem causa acabou?”, dentre outras que nos fazem pensar e levantar algumas questões, dentre as quais algo em torno do modo mesmo como nos colocamos certas questões sobre o tema. É preciso ter em mente que as respostas a que podemos chegar são fundamentalmente condicionadas pela forma como nos colocamos as questões. Parece-me que o mote básico que nos faz colocar determinadas questões sobre a adolescência hoje é o medo. O que antes em nosso imaginário sobre a adolescência se apresentava como uma fase lírica, uma transição “natural” entre a infância e o mundo adulto, frente ao que nos posicionávamos com um ar de espera entediada dos bons dias vindouros em que esta fase enfim termine, parece hoje em dia ter mudado bastante. Vamos direto ao assunto. A adolescência na contemporaneidade foi cooptada como um grande mercado consumidor dentro da moral do consumo moderna, sendo que para isso foi necessária a formação de todo um conjunto de imagens midiáticas que nos dizem o que é “ser adolescente”. Naturalmente, dentro da perspectiva midiática, a constituição das imagens sobre o “ser” do adolescente não passam pelo conjunto de conflitos e impasses que constituem a “fase”, mas pela proposição afirmativa de um modo de ser que, para ser, envolve a busca de uma série de identificações que passam, todas elas, pela presença de uma marca, um bem, um objeto que o mercado se apressa em oferecer. Dessa forma, o conjunto de identificações do sujeito humano vai sendo construído pela mediação de objetos e bens, que o conjunto do mercado midiático coloca como via única de acesso a “ser alguma coisa”, dando ao que chamo de moral do consumo o estatuto de único valor, que “realmente vale”, no que tange à criação da imagem do sujeito em relação a si mesmo e em sua visibilidade no mundo. Se pensarmos no processo de formação do sujeito humano, constituído por todo um conjunto de desejos, crenças, identificações, impasses e dificuldades em relação ao mundo e ao outro, podemos vislumbrar toda a magnitude misteriosa das questões nesse momento chamado adolescência, que as supostas respostas oferecidas pela via dos objetos de consumo, que afirmam que para ser algo é preciso possuir isto ou aquilo, que essa posse poderia nos garantir a evitação de quaisquer experiências de dificuldade emocional que poderiam ser vividas, e também naturalmente a idéia de que todas as minhas dificuldades se devem a não possuir isso ou aquilo! Todos nós temos que enfrentar em nossa subjetivação, nesse processo que nos torna humanos, o encontro com a marca da subjetividade do outro, também não igual a si mesma. Encontramos ali os paradoxos, impasses, dilemas e conflitos que, das formas mais sutis e complexas irão, em sua articulação interna, constituir as possibilidades do que vamos poder chamar de nosso, nossa imagem, nossos conflitos e impasses, constituindo também o que, de alguma forma, não poderemos chamar de nada... O psicanalista W.R.Bion nos ensinou o quanto a postura de arrogância é ligada à idéia de que nada nem ninguém pode nos acolher. A violência adolescente aparece assim enquanto possível resposta a toda uma série de dilemas e impasses, cuja vivência nossa dinâmica cultural parece não acolher; aos adolescentes resta se verem desenhados como consumidores de imagens narcísicas sem falhas, cuja perseguição pode, dentre muitos outros custos psicológicos, transformar a incapacidade de sustentação de dilemas internos em ação violenta sobre os outros e o mundo. Triste ironia! Compra de modelos narcísicos que, em suas imagens de força e desempenho são, em última instância, incapazes de carregar a si mesmo consigo...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
January 20 SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Quando nos detemos sobre o comportamento humano não nos deixa de impressionar nossa incrível capacidade, se é que podemos chamar assim, de adesividade a qualquer coisa que se aparente a um grande Outro onde possamos encontrar um lugar, uma pertinência. Onde possamos ser, por assim dizer, parte de alguma coisa, coisa essa que possa nos acenar com a possibilidade de nos oferecer um referencial identificatório. Em torno das representações de sermos pretos, brancos, japoneses, africanos, nazistas, comunistas, anões, heterossexuais, homossexuais, etc, ou qualquer outra idéia histórica que nos ofereça algum suporte de identidade, nos comportamos como seres sedentos buscando a água de um ponto que buscamos acreditar que diga em última instância quem somos... Sempre a ilusão de que possamos ser, definitivamente, definidos pela pertinência a alguma idéia, causa, missão, ou seja lá o que for. A importância disso não é pouca, na medida em que uma das grandes contribuições da psicanálise no que diz respeito ao humano pode ser posta sob a afirmação de que não há possibilidades de construirmos quaisquer representações identificatórias que possam, por assim dizer, exaurir quem somos e podemos ser. Dessa forma, afirma que o psiquismo humano é uma imensa teia de significações móveis, em constante processo de rearticulação. Nesse processo encontramos os sustentáculos possíveis no sentido da construção de nossa identidade. Identidade essa sempre provisória por um lado; por outro a imagem de uma identidade fixa, sempre ilusória, oferece ao sujeito a vivência de uma constância de si absolutamente fundamental para o equilíbrio psíquico. A partir dessas considerações, posso levantar um elemento da cultura contemporânea que me preocupa particularmente, qual seja, a busca de referenciais identificatórios últimos pela via da adesão a certas representações grupais que parecem liberar o sujeito da busca sempre angustiante da construção identitária que é uma tarefa única, intransferível e que não pode ser abdicada por aquela adesão a conjuntos ideológicos aos quais eu possa servir enquanto parte... A servidão voluntária encontra seu apelo ao sujeito enquanto acena com sua demissão da tarefa intransferível de si consigo mesmo. Temos visto assim, em um mundo cada vez mais globalizado, racionalizado, burocratizado e monitorado, um grande incremento da busca de referencias identificatórias que possuem um denominador comum, qual seja, algo que nos localize, que nos posicione na imensidão homogeneizada da chamada aldeia global. Esse algo, grupo, convicções de toda ordem, passa a operar assim como uma espécie de lar de todas as certezas, frente ao pantanoso, estranho e conflitivo mundo de nossa contemporaneidade! Nunca buscamos e dispomos tanto hoje de recursos tecnológicos para um panorama informacional global, e ao mesmo tempo também nunca tivemos tal incremento na adesividade servil a quaisquer espaços que localizem de modo fixo nossa identidade, na formação de guetos de pertinência. Eu me oferecendo enquanto parte de algo, algo que promete dizer quem sou em última instância. Absolutamente estranha tal busca última, na medida mesmo em que ser algo envolve se equilibrar ao longo de um processo psíquico ao longo da vida, não comportando o ser a fixidez desejada por muitos no sentido de se livrar da incômoda companheira angústia. Em outro momento, buscarei desenvolver um pouco mais os sentidos possíveis na cultura contemporânea do que me referi como servidão voluntária.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
January 13 RÉQUIEM A UM PAÍS
RÉQUIEM A UM PAÍS
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Talvez possamos começar a imaginar um réquiem a um país quando, dentre outras mazelas políticas, sociais e institucionais, temos quase diariamente várias cenas que compõem um espetáculo sombrio. Dessa forma, podemos nos perguntar o que fazer quando diante de nossos olhos desfilam enredos da miséria e da pura negligência bem brasileira que, não fosse nossa inacreditável capacidade de banalização, deveria nos levar a nos questionar se ainda somos capazes e realmente somos nós que pensamos e atuamos no sentido de construir uma nação, se é que a própria idéia de construir algo por aqui já não tenha se tornada ociosa. Consumido por práticas sociais onde o risco não mais existe, onde se socializa o prejuízo por toda a sociedade e os lucros migram com incrível destreza para algum paraíso fiscal na Bahamas, fazendo com que alguns batam no peito dizendo de seu empreendedorismo e amor ao país, do quanto acreditam que chegaremos lá, enquanto apostam na promiscuidade de uma relação com o Estado que os livra de qualquer ônus... O profundo amor leniente do brasileiro pela ação sem risco, pelo útero protetor do Estado é patente no Brasil, e isso nos condena ao atraso. No entanto alguns comemoram, em grande parte do país, nossa chegada ao século 19! Quantas vitórias de Pirro são necessárias para sustentarmos nossa arrogância? Quando falamos em nosso, do que dizemos? Nosso? O que significa nosso quando nos perdemos em lágrimas hipócritas, soltando pombas vestidos de branco e pedindo paz por um lado e por outro financiando o tráfico em baladas “progressistas” animadas por algum “doce” qualquer? O que significa nosso quando apitamos em Ipanema para que a polícia não nos perturbe na fruição de um baseado, torcendo para que se lembrem de quem somos e nos esqueçam, esses policiais que nos incomodam e deveriam trabalhar, entrando a ferro e fogo na favela e fazendo o que devem fazer e assim nos oferecer novos temas a teses acadêmicas, para as quais as agências de fomento de pesquisa estatais possam se interessar em oferecer subsídios financeiros, pelos quais intelectuais que abdicaram há muito de pensar lutam para conseguir ou manter. Larguem do nosso pé, incompetentes, que não aprisionam quem merecer ser aprisionado. Vão atrás da gentalha e os traficantes nos morros, justificados em sua existência por elaborações de teses acadêmicas onde a violência aparece como elemento de redenção, purificação e gozo na mente de alguns intelectuais! Quem leu “Vigiar e Punir”, escrito por Michel Foucault, pode tristemente perceber que o que o autor aponta ali serve primeiramente aos chamados “esclarecidos” do país. Triste ver como os intelectuais nunca estiveram tão cooptados, cumprindo seu papel “orgânico” na insanidade completa da desigualdade social histórica no Brasil. Sua busca maior parece ser certamente a de um lugar na primeira classe no avião arcaico fretado que carregará aqueles que tiveram sua desistência santa. Ah, Miami e seus néons azuis e rosas... Sempre descomprometida com qualquer coisa relacionada ao tema de construir algo, coopta a mazela tupiniquim no sentido de uma estética midiática. Aí entra o paradoxo que consiste na anulação mesma da existência daquilo que deveria ser denunciado. Até quando? Será que não aprendemos que todo o campo social degringola quando o ressentimento e o ódio são os afetos que mediam as relações sociais? No Brasil, a santificação da elite é algo que merece reflexão. Acreditamos que a riqueza e o dinheiro nos inocentam moralmente de tudo. Ele é um vencedor! Que país é esse, perguntaram mais de uma vez? A Gioconda da novela das oito talvez possa nos dizer! Porque escolheram o nome da Monalisa de DaVinci é algo destinado aos grandes enigmas brasileiros... Conseguimos o declínio antes do apogeu! Envelhecemos precocemente.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
January 01 ERA MEU TIO!...
ERA MEU TIO!...
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Era meu tio! Com que espanto descobri que o sujeito em um sonho antigo era meu tio. No sonho, ele estava vestido de palhaço na praça da cidade onde nasci oferecendo brinquedos para as crianças que o cercavam e fiquei, como se dizia, encabulado em me aproximar. O palhaço cativava mas no entanto não se mostrava, coberto com traje todo branco, com mangas que pareciam menores que seus braços. A idéia mesma de que se tratava de um palhaço era minha, na medida em que nada na vestimenta do personagem de meu sonho afiançava isso. Que palhaço é esse, me perguntava enquanto me aproximava. Tomo coragem de me aproximar e então um estranho jogo de adivinha tem início, quando o palhaço pergunta algo como: se eu tenho isso assim, então quem sou eu? Para mim a esperança de uma adivinhação encontrava sentido na falta de uma vestimenta que o cobrisse de todo. O braço descoberto de meu tio, não sei por que, como em todo sonho, me faz adivinhar que é ele! Fica sempre a impressão de como foi que adivinhei naquele instante em que disse a mim mesmo: É meu tio! Como ele apareceu aí? O sonho ocorreu em minha infância; refiro-me assim à infância cronológica porquanto todo sonho, a qualquer tempo, é sonhado desde a infância... O tempo em nosso psiquismo atua de uma forma bastante diferente do que nosso senso comum nos garante, na medida em que em nossa vida afetiva se põe em um instantâneo de lembranças que em nós atuam em um roteiro constituído por sua mistura mesma, a que chamamos fantasia. Ficção onde nossa posição frente a tais lembranças e angústias sempre se põe, lembranças que nos remetem há um tempo outro, onde a saudade se faz dor. Talvez meu leitor tenha uma experiência semelhante em sua vida hoje. Não está sozinho, porque certamente o que nos enlouquece em nossas experiências emocionais diz respeito a algo que nos lança na mais profunda solidão. Ninguém vive o que vivemos, estamos desgracadamente sozinhos! A ele, por todo seu apoio em minha busca há muito em me tornar psicanalista, seu presente supremo das Obras Completas de Sigmund Freud na edição castelhana de 1948, afiançada pelo próprio Freud em sua paixão pelo Don Quixote de Cervantes, adquirida quando ainda médico em formação na Escola Paulista de Medicina, minha gratidão sem nome e sem fim... Hoje, neste natal primeiro onde sua falta se faz presença, penso que o “era” de meu sonho tinha um ar mais enigmático e menos dolorido naqueles tempos. Pois é disso que se trata em nossas reflexões sobre a morte: do tempo e do grande épico que ele que parece orquestrar em nossas vidas, enquanto vivemos. Da vida enquanto vale de lágrimas, como nos alertou Arthur Schopenhauer! A lembrança da paralisação frente ao “palhaço” do sonho. Dentre outras passagens do homem Jesus, aniversariante, depreendo seu desespero e sua aposta, sua esperança em um homem e uma humanidade onde possamos de alguma forma partilhar o mistério do que significa estar, ainda, vivos... Desejo a todos os meus leitores as melhores reflexões e dores possíveis, porque o melhor vem assim na medida em que a angústia nos permita. Ao meu tio médico e sua ternura descompromissada, seu chaveiro pendurado que sempre me perguntei por que, sua aflição pelo que ainda poderíamos fazer, sua paixão pelo sofrimento do outro, meu mais profundo agradecimento, Dr. Gláucio Marini de Andrade, in memoriam. À Gazeta de Ribeirão, pela coragem e talvez imprudência em publicar essas palavras por toda a cidade. Sabe-se lá o que é isso! A meus leitores, pela paciência, generosidade e pensamento, um ótimo natal e passagem de ano e um 2008 pleno de desafios à frente, buscando ver o que de estimulante existe nisso tudo. Apostar, ainda, no imprevisível da vida! Porque tanto medo? Porque? A morte e o esquecimento nos aguardam, um dia desses... Era meu tio! Carpe Diem...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise psicossomática@gmail.com nucleotavola@gmail.com
December 23 NEUROSES DE DOMINGO
NEUROSES DE DOMINGO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Sandor Férenczi, colaborador de primeira hora do fundador da psicanálise Sigmund Freud, falecido em 1933, em um de seus artigos já nos alertava para o que sentia como uma espécie de neurose de domingo. Em outras palavras, bem antes da fatídica vinheta do programa global Fantástico, outros sentiram em algum lugar desse planeta algo de uma melancolia, uma sensação de acabou que todo domingo parece nos transmitir... O leitor talvez compactue comigo em algo em torno do estranho dessa sensação! O sol se põe, sua última luz do dia sobre as nuvens que encobrem a cidade, compondo um sentimento de extrema futilidade e finitude frente à eternidade e grandeza de um mundo que parece nos dispensar. O sentimento de pura superfluidade na esteira da pergunta: Porque estou aqui?! Em um mundo onde não sabemos se sobreviveremos às baratas, o que ouvimos da experiência das pessoas sobre o entardecer de domingo, uma tristeza sem nome e sem fim que aponta, penso, para um luto, uma lembrança a qual nos sentimos como último depositário. Parece que todos já foram, e eu ainda aqui?! Penso em meus amigos, em pessoas que conheci. Onde estarão neste momento? Será que estão olhando para o céu e se perguntando algo parecido comigo sobre o que significa estar aqui? Será que ainda se lembram de mim? Em nossa linguagem dizemos que a noite cai. Acho que cai mesmo, nossa linguagem diz perfeitamente o sentimento que nos toma. Algo cai em nossa cabeça... O valor do outro, dos amigos que temos e tivemos, onde estarão quando a noite vem? Amigos que compactuam de nossa dor de existir. Amigos que nos mostram e nos tornam sempre e sempre mais humanos, com demonstrações infinitas de uma ternura e carinho que buscam por vezes formas tortuosas de se mostrar. Uma grande saudade invade o domingo. Saudade de que? Atravessa-nos a alma, cortante, naquela dor difícil de remeter a algo inteligível. Mistérios de um infinito de viver... Na linguagem prosaica sinto a profunda dificuldade de passar esse estranho dessa sensação. Penso que os poetas, nas idas e vindas com o maravilhoso jogo das palavras podem ir muito mais fundo em evocar e passar o instante de eternidade que o luto do domingo nos atinge. É isso! Porque hoje é domingo, para parodiar o poeta em seu “porque hoje é sábado”. Tudo por recomeçar, um convite semanal a morrer e nascer de novo na segunda-feira. Neuroses de domingo. Algo de uma alegria triste... Instante difícil de suportar, a alvorada de uma solidão quando o sol se põe e a noite vem. Ela cai. Quem morreu? O domingo e seu ritual de um lamento. Memórias aos domingos. Quase falamos, vem, mostre o que quer dizer com essa brisa fresca de final de tarde. Diz para mim... Talvez o silêncio seja parte de alguma resposta de perguntas feitas somente aos domingos. É preciso saber ler nos movimentos do dia. É isso! Será? O leitor, espero, pode me perdoar por essas questões, porque hoje é domingo. Vou ver o movimento das nuvens, buscando descobrir algo... E a noite cai.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
December 17 DE MORALIDADE E ÉTICA
DE MORALIDADE E ÉTICA
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
A psicanálise nos mostrou que o grande motor da vida psíquica, e também sua principal fonte de angústia, se refere a nossa busca de um lugar de pertinência frente ao olhar do outro, olhar esse concebido como o desejo que o outro abriga sobre nós. O psiquismo humano se debate sempre com esse enigma de fundo, sobre o lugar simbólico que ocupamos no desejo do outro; enigma que impõe um grande e constante trabalho ao sujeito humano no que tange a suas tentativas de, por assim dizer, adivinhar o lugar que o desejo do outro nos coloca em sua vida subjetiva. Normalmente mencionamos os termos moralidade e ética enquanto sinônimos; subentendemos que os dois termos estão relacionados às mesmas experiências humanas. No entanto, quando nos referimos ao tema da moralidade e da ética e buscamos apontar algo de suas diferenças, penso que possa ser interessante nos balizarmos por aquela condição nuclear da subjetivação humana, aquilo que nos torna humanos singulares, qual seja, aquele exercício jamais respondido sobre quem somos nós frente ao outro... Jamais recebemos resposta satisfatória a essa pergunta central. Ela de toda forma opera como um grande estímulo interno ao psiquismo humano, que se constitui sempre em torno das vicissitudes da presença do outro em nós. Na relação com o outro podemos perceber, no que tange à moralidade e a ética, ecos dessa presença primeira no sujeito. Tomando a moralidade e a ética como sinônimos, perdemos de vista questões humanas fundamentais que se põem na diferença entre as duas noções. Na educação moral, obtemos toda uma série de diretivas que nos instruem sobre a reação do outro frente a nossos pensamentos e ações. Em outras palavras, a moralidade busca sempre mapear e instruir ações e comportamentos em determinado meio cultural; ela se propõe a dizer de antemão como será a resposta social a ações do sujeito no mundo cultural onde está inserido. Assim, na moralidade temos a ilusão da garantia de saber qual será a resposta do outro e da sociedade à nossa capacidade de agir no mundo. Dessa forma, podemos pensar que uma fonte importante da adesividade do sujeito à moralidade diz respeito ao aceno que ela faz no que tange àquela resposta tão buscada sobre quem somos ao olhar do outro, e o mapa sobre o que fazer para sermos o que queremos ser frente ao outro. Se agir dessa forma, será visto assim; se agir de outra forma será visto assado... No que diz respeito à ética, outros problemas estão postos na medida em que na vida cotidiana somos sempre convidados a decisões e posicionamentos em torno dos quais não sabemos a priori a resposta do outro. A ética marca a vida do sujeito humano na medida das inúmeras possibilidades de ação humana em um mundo onde o imprevisível é sempre presente. Não é sem motivo, certamente, que o tema da ética está intimamente relacionado ao tema da liberdade do homem. No conjunto de relações afetivas do sujeito, a marca da vida humana como sendo essencialmente ética se mostra de modo cabal, porquanto estamos imersos e lidando com um universo emocional para o qual as diretivas morais coletivas se apresentam insuficientes, no sentido de mapear as experiências emocionais que vivenciamos de modo absolutamente singularizado. A psicanálise nos mostrou a importância da tarefa eminentemente ética do sujeito consigo mesmo em busca da singularidade de si, tarefa que envolve a responsabilidade sobre a própria vida e relações emocionais que, infelizmente de forma muito freqüente, passamos candidamente a responsabilidade aos outros... A responsabilização de si frente à própria vida não deve ser confundida com culpabilizacão. De muitas formas somos tentados a uma culpa constante, que apesar do seu doer parece cumprir funções na vida do sujeito que o demitem do terreno mais complicado da responsabilidade ética.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
December 09 PASSADO E MEMÓRIA
PASSADO E MEMÓRIA
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Temos em nosso senso comum uma concepção linear do tempo e do passado enquanto conjunto de fatos da vida que já se foram. Certamente isso é verdade, conquanto que tenhamos em mente de que se trata de uma convenção tácita entre os homens de que sabemos onde está o passado, que podemos de alguma forma traçar sua fronteira em relação ao presente e ao futuro. Parece-nos de fundamental importância ter, em nossa relação com o tempo, o sentido e a certeza de que estamos agora no presente. No entanto, na dinâmica de nosso psiquismo, as fronteiras não são nítidas dessa forma... Nossa vida psíquica é marcada pela existência de um inconsciente que não faz nenhuma diferença entre registros de fatos, enquanto memória do passado ocorrido, e ficções articuladas por campos de fantasias no sentido de realizações de desejos. Esse dado é importantíssimo, na medida em que nos mostra algo fundamental no que tange ao funcionamento do psiquismo humano, qual seja, que o que chamamos memória, que acreditamos fielmente retratar o que se passou, é absolutamente implicada pelo campo de ficções criadas pela dinâmica do desejo. Podemos perceber a radicalidade da descoberta psicanalítica se desdobrarmos, em suas últimas conseqüências, essa idéia da participação do desejo no que podemos nos lembrar, e também no que buscamos esquecer. Dessa forma a psicanálise nos afirma a idéia, penso que até hoje com conseqüências ainda não de todo desenvolvidas, de que os processos ligados à memória estão condicionados ao desejo e, por conseguinte, ao conjunto de mecanismos psíquicos com os quais lidamos com ele, chamados pela psicanálise de modo genérico de mecanismos de defesa. Como nos diz o psicanalista inglês Adam Phillips, a psicanálise é um imenso conjunto teórico em torno dos usos que fazemos inconscientemente do esquecimento! Dizer de mecanismos defensivos significa apontar que existem fatos de nosso passado cronológico que são articulados entre si pela dinâmica do desejo humano construindo uma trama ficcional inconsciente, na medida em que não compatível à consciência que o eu tem de si mesmo, mas que o enreda, que o determina em uma tragicomédia emocional que sente sintomaticamente de modo vago, como de uma repetição estranha. ”Parece que vejo isso sempre de novo em minha vida...” Passado que não passou?! Sofremos de todo um campo de reminiscências de um passado articulado em nossa vida atual como resultante de um jogo sempre continuado entre desejo e defesas, compondo o que podemos lembrar e o que devemos esquecer. Quando afirmamos que sofremos de reminiscências estamos dizendo que elas são fragmentos de lembranças, lembranças que paradoxalmente não lembramos, no sentido usual da palavra lembrar, mas que agem em nós enquanto modelos constituídos naquele passado não lembrado, mas atuado “ao vivo” de muitas formas em nossa vida atual. Lembranças não lembradas; lembranças que agem inconscientemente! Se pensarmos um pouco, podemos ver quão estranha e fecunda, no que tange a uma melhor compreensão do humano, é essa afirmação psicanalítica. Trata-se assim do que chamamos memória, sem dúvida, mas não como lembrança sobre quem estava em nossa comemoração de aniversário, que lembramos tranquilamente em momentos no sofá, mas sim de outra forma de uma memória que escapa à consciência do sujeito. Mais que isso, que escapa enquanto lembrança consciente, mas que o insere através de seus sentimentos, comportamentos, sofrimentos, por assim dizer “dentro” das cenas de uma memória que diz de si de uma forma que não pode escutar, somente sentir seus efeitos enquanto um estranho em relação a seu próprio passado emocional. Na relação com a memória que nele atua e o insere, o eu sempre se comporta como aquele que pergunta: Quem é? A resposta vem na forma do: É o frio!...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
A PSICANÁLISE NA CULTURA
A PSICANÁLISE NA CULTURA
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Na modernidade parece que caminhamos a passos largos rumo a uma burocratização da vida que não deixa de surpreender. No melhor estilo bovino que vamos vestindo no sentido de um trilhar a vida, fazendo um esforço imenso para que perca o que a define em sua grandeza e mistério, sua imprevisibilidade. A psicanálise se defronta hoje com questões ligadas a novas formas de sofrimento psíquico às quais é chamada a responder na clínica contemporânea. Nesse esforço, além de estudos ligados às novas configurações de conflitos psíquicos, a psicanálise também aposta em seu ferramental teórico no sentido de pensar dinâmicas culturais e sociais, no que o psicanalista francês Jean Laplanche já denominou de esforço de psicanálise extramuros. Vários analistas vêem contribuindo com estudos nesse sentido, além naturalmente de seus respectivos trabalhos clínicos e teóricos no enfrentamento de problemáticas trazidas por sujeitos singulares, inseridos em um campo cultural que também buscam compreender. Desde sua fundação por Sigmund Freud, a psicanálise veio se constituindo por um lado enquanto movimento institucional e por outro também enquanto fato de cultura. Enquanto fato de cultura, é importante apontar para o fato de que ela inaugurou e constituiu historicamente uma nova concepção do sujeito humano, marcado pela sua aposta na existência de um inconsciente dinâmico que configura as formas singulares em cada um de nós de sentir, pensar, agir, enfim, como nos inserimos nas relações e no mundo humano. Fato de cultura também na medida em que ofereceu aos sujeitos na modernidade, através da difusão de seus conceitos e vocabulário no ambiente cultural, novas possibilidades de pensar sobre si mesmo, seus impasses, conflitos, dentre outras vivências. Não podemos subestimar o impacto cultural que a psicanálise exerceu desde sua fundação e ao longo de toda a sua história até nossos dias, em que ela já conta por volta de 110 anos de idade, na medida em que encontramos dificuldade em mencionar algum campo cultural humano em que ela não tenha tido influência, tal como por exemplo na pintura, escultura, literatura, filosofia, dentre outras manifestações do psiquismo humano. Ao longo desses anos ela foi e é objeto de interesse não somente por aqueles que buscaram se tornar psicanalistas, mas também por toda uma gama de grandes mentes em vários campos ao longo do século vinte, tais como Albert Einstein, Pablo Picasso, Thomas Mann, H.Hesse, Salvador Dali, dentre muitos outros. Não foi certamente à toa que em 1936, quando de seu aniversário de 80 anos, Freud recebeu uma carta de congratulações por sua obra tendo mais de 140 signatários do porte dos mencionados acima. No interior do movimento psicanalítico, a produção teórica de grandes nomes tais como Sandor Ferenczi, Melanie Klein, Donald Woods Winnicott, Wilfred Ruprecht Bion, Jacques Lacan, Ogden, Bowlby, Karen Horney, Françoise Dolto, além de muitos outros, fizeram com que a psicanálise de muitas formas pudesse responder ao sofrimento do sujeito humano ao longo de mais de um século de vida, reeditando a saga freudiana em busca dos mistérios do existir humano, da dor que esse existir parece implicar. Pensar a psicanálise na cultura significa apontar no que ela pode nos remeter e ajudar a construir uma vida retirada da burocracia do pensar e do agir contemporâneo, onde a subjetividade de cada um de nós cabe menos a cada dia em nome de uma suposta racionalidade onde nossa dinâmica afetiva somente tem lugar enquanto psicopatologia... A saga que Freud inaugura, retomada pelos seus seguidores, diz respeito a uma sustentação do mistério que envolve o psiquismo, objeto mesmo da psicanálise, a existência e ação do inconsciente na mente humana, onde quanto mais descobrimos, mais parece sobrar a descobrir. A psicanálise sempre tributária de Shakespeare...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
November 22 COTIDIANO DE MORTE
COTIDIANO DA MORTE
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Nos tempos atuais podemos nos colocar a questão, na medida em que ainda não nos deixamos tomar pelo cinismo dominante, sobre o que nos colocou cultural e socialmente em um campo de violência inaudito na história do país? Que condições e fatores se articularam em nossa história para que estejamos presentes em vários estudos internacionais e nacionais em posição tão profundamente desfavorável no que diz respeito à violência? Olhando mais atentamente o que está envolvido no fenômeno da violência no Brasil é difícil evitar a perplexidade vinda de uma série de constatações inevitáveis. Percebemos atônitos, que na violência no país nos atravessa certa impressão de um império da banalidade. Nenhuma das grandes questões que alimentam conflitos violentos que conhecemos em outros países está presente na violência tupiniquim. Aqui, matamos por vaga em Shopping Center; tênis e telefones celulares valem vidas... Na roda viva da banalidade da vida, na qual ninguém tem mais qualquer referência sobre como deveria se comportar, para ter algo de uma segurança de não ser ameaçado pelo círculo de horrores dos acontecimentos que desfilam nos meios de comunicação, visando o cidadão ameaçado com fantasmas potentes ligados a angústias primevas de impotência e desamparo. A psicanálise já nos mostrou que o sujeito humano levado ao abismo de seus fantasmas de impotência e desamparo é capaz do impensável. Penso que a violência no Brasil, no seu elemento de banalização completa do valor maior da vida, coloca os sujeitos frente a uma experiência de desamparo que faz do viver cotidiano um torturante esperar, esperar por algo que não conseguimos conceber, mas que nos aparece no corte de nossa angústia de todo dia. Dessa forma, vamos presenciando hoje que a experiência maior cotidiana de toda uma gama de afetos é o medo, que sempre nos sinaliza com a necessidade compulsiva de sumir desse mundo; de alguma forma nos tornar invisíveis em um canto onde não possamos supostamente ser vistos pelo olhar ameaçador do outro... Afinal, basta existir para ser vítima de algo! O medo estreita a vida e suas possibilidades de vivências. Ele nos promete que nossa vida será melhor se a gerirmos em torno de suas recomendações. O que vamos recebendo dessa promessa é o afunilamento constante de nosso nos colocar no mundo e, paradoxalmente, mais medo... O medo recomenda nos travando, fazendo-nos crer que a vida é somente o que ele nos apresenta, em um enredo cada vez mais fixado em que nossa posição fica parecida com a criança que pergunta após o apagar das luzes do quarto: “o que está acontecendo? ’’ Na orfandade do cidadão brasileiro em relação ao como reagir ao, no meu entender, maior problema da sociedade brasileira hoje, e dada a inépcia do Estado no que tange a suas obrigações básicas com sua população, vamos presenciando manifestações derivadas de respostas à angústia de impotência e desamparo, em que o outro vai sendo paulatinamente e cada vez mais percebido como sempre hostil à priori, desencadeando acontecimentos que beiram o cômico se trágicos não fossem, em que a banalização de quaisquer valores ligados à preservação de sua integridade traz a marca de nossos tempos sombrios. No Brasil, vamos enfrentando com negligência assustadora um problema que em si mesmo já é o entroncamento do toda uma série de outros em que a precariedade institucional do país se mostra em sua face mais cruel, em que a violência aparece não somente no que facilmente a reconhecemos, mas também nas relações cotidianas em que a instrumentalizacão do outro é uma constante na vida cultural, criando nos sujeitos uma apreensão de superfluidade do valor humano de si mesmo. Podemos morrer a qualquer hora! Mortos já de alguma forma, conquanto paralisados pelo pacto com o medo...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
November 18 O CELEBRAR DA PAIXÃO
O CELEBRAR DA PAIXÃO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Se pudéssemos imaginar o que viria depois da paixão, como poderíamos viver o que ela nos pede? Há sem dúvida uma espécie de convocação e celebração em todo apaixonar-se. A paixão nos chama, chama com a força dada pela condição humana do inconsciente, inconsciente que marca nossa posição “de passagem”, de um por vir, marcando com isso nossa incompletude, nosso estar em jogo, que tememos no nome maior do temor que é a neurose. O temor é a argamassa do neurótico, medo do jogo que a vida pode ser, do “trânsito” do viver, da imprevisibilidade de onde podemos estar algum momento. Em nossa paixão, enquanto vivência extática dos percursos da dinâmica do desejo, o inconsciente nos chama para essa espécie de celebração através do outro de um estranhamento de nós mesmos. Algo em nós atende um chamado de um “passar por...”. Algo do inconsciente reconhece um outro muito específico como o escolhido na cumplicidade de viagem na paixão. “Strangers in the night”!A paixão é esse “passar por alguma coisa”, algo de uma espécie de destinação a cumprir, destinação de si rumo ao desconhecido, do desconhecido de sua mudança pela paixão. Êxtase hipnótico, a paixão, esse sonhar acordado faz acontecer algo; nós passamos a acontecer na medida em que nela vivenciamos muitos nós em nós mesmos. Como já disse o poeta, ficamos exagerados... Acontece alguma coisa. Acontecemos nós! Nossos fantasmas internos se põem no grande drama e na grande comédia que realizamos em nossa paixão, marcando as dores e delícias desse roteiro a que somos arremessados sem conhecer-lhe o final... Nos olhamos e nos vemos como aparecemos em nossos sonhos. Aparecemos de várias formas, nas formas que o sonho nos conta. Contamos o sonho a alguém, mas temos poucas vezes a impressão fundamental de que o sonho nos conta! Parece nos chamar. Venha, não tenha medo. Conto com você! Você não vai e conta a história de uma convocação faltosa. Faltou você, contando dali, de onde foi chamado a estar! Achou bonito o balanço das ondas do sonho, mas não bebeu da água, nem quase se afogou. Atualmente vivemos um grande impasse subjetivo derivado dos modos culturais de subjetivação dos sujeitos, modos pelos quais nos tornamos o que somos enquanto humanos singulares, que privilegiam toda uma série de diretivas que seriam desejáveis, tais como o individualismo pragmático, competitividade, obsessão pelo controle de si, dentre outros, que vão na contramão de todo o imaginário cultural em torno do amor-paixão romântico: perder-se no outro, descontrole de si, irracionalidade dos atos, dentre outros. Dessa forma o amor aparece hoje como um ideal, talvez o único, em que os sujeitos buscam uma espécie de redenção de si, mas que paradoxalmente temem entrar em sua dança, na medida em que implica o outro e a possibilidade de sofrimento, com o qual a cultura contemporânea busca lidar negando sua legitimidade afetiva ou buscando sua patologizacão. Como se o ambiente cultural hoje dissesse: Se você está sofrendo, você precisa encontrar algum discurso patológico no qual se enquadrar, na medida em que em nosso admirável mundo novo sofrer é coisa de perdedores ou doentes... Ficamos assim sem poder perceber e valorizar o significado psíquico de um perder-se na vivência da paixão, perder-se que parece nos empurrar para a descoberta aturdida de nossas diferenças em relação a nós mesmos. Amor-Paixão, exercício épico de estranhamento de si, de encontrar-se na pura diferença em relação à imagem de si mesmo. Na transcendência de si buscada na e pela presença do outro amado; do que podemos ser e descobrir a partir desse encontro, nessa diferença. Amar é sonhar acordado, com toda a significação com que o sonhar premia nossa vida. Ainda deixar-se maravilhar. É tempo?...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
November 11 A VIDA E SEU VALOR
A VIDA E SEU VALOR
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Qual o valor da vida? Pergunta difícil na medida mesmo em que é somente através dela que vamos podendo aprender o que significa valor, o que pode vir a valer algo para nós em nossa singularidade, no devir de cada vida em si mesma irreproduzível. Dizer que a vida de cada um de nós é irreproduzível em relação a outras vidas obtém um consenso geral sem questionamentos. Aqui, no entanto, quero hoje me deter um pouco mais no alcance da idéia de que a vida singular de cada um tem no decorrer de seu próprio fluxo essa propriedade de irreprodutibilidade. Essa idéia carrega maior interesse se a colocarmos junto à experiência que o eu tem de uma continuidade de si ao longo do tempo, um sentido de constância que parece ir de encontro ao que dissemos sobre um irreproduzível no fluxo da vida. Ao psicanalista não cabe a presunção de que tenha valores que possa oferecer como um bem ao analisando no percurso analítico, mas de outra forma ter como único valor o da vida. Valor da vida enquanto esperança quanto a novas e sempre imprevistas possibilidades de viver, pensar, sentir e também sofrer, na medida da aposta psicanalítica na existência e operatividade de um inconsciente dinâmico, capaz de reconfigurar constantemente formas e vivências emocionais ao sujeito. Valor da vida enquanto condição de possibilidade para o novo, que tem como condição de aparecimento sempre a presença do outro em vários campos de relação com o sujeito, incluindo aí a relação analítica. A vida, em sua magnífica profusão de experiências possíveis, oferece ao sujeito o valor de um sempre devir sem garantias que o convoca a apostar eticamente em suas palavras e atos, sem saber de antemão seu campo de ressonâncias na rede de relações nas quais está inserido. Convida, enfim, ao exercício da liberdade, enquanto um por assim dizer completar o vazio com as pinturas possíveis à configuração da subjetividade do sujeito. Podemos vislumbrar assim que o valor da vida não pode ser medido, porquanto nunca em determinado momento totalmente totalizado, sendo sempre a condição a priori de um porvir... A inserção na vida, enquanto rede de relações é isso mesmo, uma inserção do sujeito em algo maior do que ele, em uma vida significada por uma rede de relações e pelo outro que em muito difere de uma concepção da vida enquanto metabolismo corporal biológico que se esgota em si mesmo. Inserção na vida significa que o sujeito ele próprio é significado, posto em determinado lugar no conjunto psíquico de quem com ele se relaciona, rede essa que nos dá um valor simbólico que equivale certamente às possibilidades de sermos lembrados pelo outro; condição única de sobrevivência para além da vida biológica, a memória do outro. Desde a Grécia antiga, os poetas escreviam no sentido de uma tentativa de imortalizar feitos, que de outra forma seriam fugidios, aos que depois viessem ao mundo e pudessem de sua forma manter viva a lembrança de atos e palavras de quem agiu e falou no sentido de intervir no mundo, na grandeza da ação ética que não pode conhecer seus efeitos à priori. Outros darão o sentido, no seu tempo e em sua vida, ao que foi passado por alguém em algum outro tempo... Vida ao vivo! No encontro sempre complicado com novas possibilidades sempre convidamos a angústia para o jantar... E certamente também a marcar de alguma forma o mundo com algo de nós, no convite à responsabilidade singular que ninguém mais pode assumir por nossa vida. Esta parece ser uma grande dificuldade, vir a sentir nossa vida como nossa, ou que possa vir a ser nossa; que possamos sair da posição de turista em nossa vida, alienando perversamente nossa responsabilidade intransferível a grandes discursos nos quais buscamos nos fazer uma parte, objetos... E você, tem aceitado a convocação reiterada da vida a viver?...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
November 04 SOBRE ELITES E TROPAS
SOBRE ELITES E TROPAS
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
É certamente muito intrigante o campo de ressonância que o filme Tropa de Elite, em cartaz atualmente, parece ter tido sobre os espectadores. Aqui, sem querer de maneira alguma totalizar o conjunto possível dessas ressonâncias, busco poder dizer algo sobre o que poderia ter tido alguns desses efeitos, melhor talvez chamarmos impacto, que o filme teve sobre a platéia. O protagonista do filme, Capitão Nascimento, interpretado pelo talentoso ator Wagner Moura, é um homem que catalisa em si o drama do filme na medida em que apresenta ao espectador um, chamemos assim, pensamento visceral sobre o trágico universo da droga, corrupção, falência institucional do aparelho estatal, dentre outros aspectos vistos sob a ótica de alguém colocado em sua vida frente aos impasses do “sistema”. O personagem catalisa dramas não somente vindos de sua posição no “sistema”, enquanto policial no varejo, no escoadouro da tragédia nacional que aparece no filme com a apresentação de uma elite já há muito refém da droga, uma elite que preferiu a fascinação hipnotizada por Prada e Louis Vuitton e os néons azuis e rosas de Miami; elite que tem como tripé ético, no dizer do psicanalista Jurandir Freire Costa, o sexo, a droga e o credicard... Elite que tem se furtado historicamente a pensar algo que pudesse capitalizar todo um desejo de mudança no país no sentido de criar algo próximo do que pudéssemos chamar de nação, aonde o tecido social não chegasse ao ponto de dissolução e incomunicabilidade em que nos encontramos hoje, que se expressa pelos paradoxos da violência que deságuam na luta sem vencedores do Capitão Nascimento e sua Tropa de Elite. Capitão Nascimento, que espera ternamente o nascimento do filho, faz uma ponte identificatória poderosa com a platéia no que tange à nossa impotência de pensar e apostar em algo maior para o país enquanto nação. O recado do filme é uma lamento por uma outra elite que poderia ter existido no país, cuja ausência tem como decorrência a única elite hoje aceita pelo cidadão, a elite da tropa, onde todos os dramas e paradoxos da violência da cultura brasileira desembocam... No personagem de Wagner Moura algo toca profundamente os espectadores. Perguntei-me o que seria? Por onde passaria o tamanho impacto psicossocial do filme? Acossado pela ansiedade que o ameaça com o que mais teme, o pânico, Nascimento põe ao público um elemento fundamental que parece termos esquecido, nossa capacidade de pensar sobre alguma coisa. O público parece admirar nele a capacidade de possuir uma imagem e um ajuizamento sobre o que se passa, independentemente de concordar ou não com o que expressão. Penso que grande parte do apelo que o personagem exerce decorre da apresentação desassombrada ao público do que ele pensa sobre o que o circunda, exercendo uma faculdade de juízo que estranhamente abandonamos ou de alguma forma não nos sentimos capazes, na medida em que passamos a imaginar que tudo faria parte de um imenso “processo” que também nos integra e que, por conseguinte, todos seríamos suspeitos demais para pensar e falar sobre... O capitão se torna assim denunciante e parte de uma hipocrisia, sem se perceber como tal, na medida em que no seu dizer “limpa a merda dos outros”, o que aos olhos do espectador parece torná-lo a única elite em que hoje poderíamos desesperadamente acreditar. Assim, deveríamos talvez nos perguntar que “processo”nos levou a crer que a única elite aceitável é a simbolizada pelo Capitão Nascimento, que coloca como sua única ação possível na tragédia brasileira a idéia de que resolvemos matando. “Passa ele”! Triste caricatura da falta histórica de uma elite com compromisso com o bem comum que poderia ter existido e apostado em algo diferente para as tensões sociais que chegaram onde imaginaram que nunca chegaria. Chegou. Pegou geral...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
October 23 O DESEJO E NOSSO SOFRER
O DESEJO E NOSSO SOFRER
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Em psicanálise o desejo ocupa um lugar absolutamente fundamental na teoria e na clínica. Ocupa tal lugar na medida em que aparece como um conceito central na busca de compreensão de todo o campo de sintomas do sujeito humano. O que o desejo pode nos esclarecer sobre os padecimentos sintomáticos de cada um de nós? Para circunscrevermos melhor a significação posta pela psicanálise sobre a importância de sua presença na subjetividade humana e sua relação com nossos sofrimentos, talvez devamos nos perguntar o que é o desejo e a partir daí possamos detalhar um pouco mais do como e porque ele passa a se constituir como esse elemento nuclear do mal-estar e do sofrer humano. Em contraste com certa idéia que concebe um eu com seu desejo, a psicanálise nos mostra que a concepção de um eu com um eventual desejo já é uma imagem secundária ao fato psíquico que ela busca apontar, qual seja, que o eu, sua forma de perceber e se relacionar com sua realidade são fatos correlatos. O que isso quer dizer? Em primeiro lugar, a novidade da afirmação que a representação que construímos de nosso eu é correlata à representação que construímos de nossa realidade, no sentido de apontar que são representações interdependentes e que ambas são construídas pela dinâmica do desejo humano. Isso é radicalmente novo porque não concebe um eu preexistente ao desejo, pelo contrário pensa ambos, o eu e a realidade como ele pode concebê-la, como construções provisórias do desejo. Podemos perceber a partir do que já foi dito a importância do desejo no devir do destino pessoal de cada um de nós. Em segundo lugar, falta ainda colocarmos um pouco do que é essa concepção do desejo, porquanto fizemos depender dele a representação que temos de nosso eu e de nossa realidade. Relacionado sempre à falta, o desejo é a conseqüência subjetiva dessa falta. Que falta é essa? Ela é fundante do psiquismo na medida em que é a condição do desejo que em última instância busca, através de objetos diversos, uma espécie de retorno a um estado onde tal falta não exista, lugar nostálgico onde a ruptura da fusão do sujeito consigo mesmo não exista. Assim, o desejo nos perturba na medida em que nos passa a mensagem de que não somos iguais a nós mesmos, de que uma fissura na fusão com nossa própria imagem se impõe, de forma que o desejo é vivenciado como uma ruptura na imagem narcísica que temos de nós mesmos, como uma ferida... De onde fomos, por assim dizer, arrancados para que nossa vivência da falta posta pelo desejo nos apareça assim como uma ferida? Ferimento que nos faz resto sobrevivente de algo que não sabemos, tendo no aspecto melancólico de uma lembrança nosso algoz, nosso flagelo como crianças perdidas em um mundo que nasceu para nós onde tudo se acabou... Que lugar no tempo é esse que nos atravessa como uma lembrança que não podemos lembrar, mas que parece sempre estar presente em sua pura ausência, em sua perda? O desejo carrega em si uma espécie de luto por nós mesmos, em uma imagem psicanalítica da descrição de Guimarães Rosa sobre o ser humano como cadáver adiado que procria. Em nossos sintomas, no campo de mal-estar no mundo repomos algo de uma impossibilidade, paródia do impossível da fusão conosco mesmos. Nossos sintomas sempre buscam dar a volta em uma impossibilidade, tentativa que constitui a tortuosidade da vida neurótica, sendo ao mesmo tempo lembrança e negação do desejo. O sofrimento neurótico é tanto mais sofrido quanto se põe como álibi, sempre reposto onde um novo sofrimento ameaça aparecer. Freud aponta com profunda acuidade que devemos nos dar por satisfeitos se pudermos substituir um sofrimento neurótico por outro qualquer... Outro que não esteja a serviço da negação do desejo que nos constitui e marca em sua singularidade nossa humanidade.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
October 21 DO FALAR E DO DIZER
DO FALAR E DO DIZER
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Normalmente temos uma concepção sobre a linguagem humana que a define em termos de sua capacidade de comunicação. Comunicar significa tornar algo comum, presente e partilhável pelo falante e pelo ouvinte. Quando comunicamos algo buscamos e supomos que o outro possa partilhar daquilo a que nos referimos pela linguagem. Isso implica a construção de uma espécie de pacto mútuo entre os participantes do ato de comunicar a respeito do assunto que estamos falando, que sabemos do que estamos falando, enfim toda uma espécie de circunscrição da linguagem em torno de algo que supomos como sendo uma coisa, um objeto localizável, aquilo a que estamos nos referindo e sobre o que estamos falando. Em outras palavras, no campo da comunicação cotidiana humana toda uma série de recortes e fronteiras de temas e assuntos são necessários no sentido de firmar o pacto mútuo mencionado acima, pacto que é condição de que algo possa ser comunicado, no sentido de se tornar comum enquanto suposição a cada um de que um significado fixo do que foi comunicado foi de alguma forma alcançado. A linguagem dessa forma aparece ao sujeito como um instrumento de comunicação que teria por função descrever algo do mundo, tornando-o comum, familiar, no ato mesmo de comunicar, partilhar sua existência com o outro. No entanto, a psicanálise nos mostra que a linguagem abriga aspectos outros além da mera concepção comunicacional. Ela nos mostra que, para além do fato de que quando falamos sobre algo estamos falando sobre algo no sentido de uma descrição desse algo, estamos principalmente falando sobre algo no sentido de que estamos falando apoiados, suportados em algo. O que isso quer dizer? Falamos desde um lugar, não somente enquanto ponto de vista em relação ao objeto do qual falamos, mas desde um lugar para marcar o fato humano de que quando falamos, apesar de todos os esforços para demarcar as fronteiras do assunto ou dos objetos a serem descritos, dizemos mais. A aposta psicanalítica é centrada no fato de que quando falamos sobre algo estamos também dizendo de algo mais... Essa idéia é absolutamente central e penso que merece toda consideração em torno do alcance de seu significado humano. Pensemos na grandeza de podermos observar que nossa linguagem, ao falarmos, diz simultaneamente de algo mais do que buscamos falar! O que constitui o algo mais? O algo a mais nos traz a concepção psicanalítica da linguagem humana como um campo de evocação, não somente comunicação de algo; evocar na linguagem toda uma série inconsciente de reminiscências dos traços de nossa história emocional quando falamos de alguma coisa, qualquer coisa, não me parece uma percepção sobre os fenômenos humanos que possa ser desprezada. Ela significou podermos abrir caminho para pensarmos que, em cada ato de linguagem, nos endereçamos não somente ao objeto sobre o qual falamos, mas que dizemos também sobre os fantasmas nos quais nos apoiamos para, dentre outras coisas, podermos pensar de determinada forma sobre o algo do qual falamos. A performance da linguagem, na imprevisibilidade do que pode dizer de nós a nós mesmos a respeito de nossa relação com nossos próprios fantasmas ao falarmos de algo, nos oferece a experiência de nos sentirmos invadidos por algo afetivamente maior do que o que estamos conscientemente nos referindo, tal como em nossos sonhos onde o que podemos nos lembrar de sua história frequentemente não corresponde ao que sentimos quando da passagem de seu enredo! O modelo do sonho que sonhamos em nosso sono ofereceu à psicanálise algo do que ocorre em nossa vida de vigília quando falamos. Em que enredo fantasmagórico estamos quando falamos? O que eu não falei aqui que te levou a pensar que eu disse?
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
October 13 ALÉM DA HIPOCRISIA E DAS INIBICÕES
ALÉM DA HIPOCRISIA E DAS INIBICÕES
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Que a vida possa ir além da hipocrisia e das inibições. A expressão posta por Sigmund Freud possui um amplo conjunto de significações possíveis que pretendo desenvolver aqui. Ela comporta, dentre outros, certamente o significado de uma aposta no imprevisível devir de si mesmo que a presença do desejo impõe como condição humana. A grandeza desse imprevisível devir de si mesmo na relação com a vida parece sempre nos assustar; estranhamente tememos o que nos marca enquanto humanos, a capacidade de mudança no enfrentamento do fluxo incessante do tempo... Podemos sem dúvida conceber um grande denominador comum a todos os sintomas do sofrimento psíquico: eles envolvem sempre uma tentativa inconsciente de paralisação do tempo, marcando, fixando e remetendo-o a algum ponto da história emocional do sujeito. A fixação sintomática em algum outro tempo, em certo momento de nossa história carrega sempre um componente inibitório no que diz respeito à capacidade do sujeito humano em se posicionar frente ao campo de exigências que o fluxo do tempo e da vida colocam. O inevitável sentimento de estranheza e dúvida em relação à atualidade e realidade do vivido aponta para o sujeito tomado pela paralisia decorrente da atuação de fantasmas de um tempo paralisado no psiquismo. A paralisia frente ao passado se põe na experiência atual do sujeito na forma do que chamamos inibições, tal como, se pudermos com uma imagem melhor ilustrar, o sentimento de paralisia que temos em alguns sonhos onde o próprio sonhador se vê em alguma situação onde, por exemplo, não consiga se mover frente a algo ameaçador... Importantíssimo notar que nossa paralisia em algum ponto do passado está relacionada a uma espécie de ameaça. A imobilidade frente ao perigo o mantém como um instante perpetuado, inalterado ao longo do desenvolvimento psíquico; também podemos nos perguntar por que algo ameaçador pode trazer o efeito de nos fixar em um tempo psíquico e qual a natureza desse perigo, no sentido de criar a experiência posterior da inibição? Em outras palavras, a inibição nos aparece como resultado de um processo que tem o sentido de manter uma posição em relação a algo ameaçador que acreditamos de alguma forma nos proteger, mas que em última instância é apenas a posição que nos restou, posição hipnotizada como a do crocodilo paralisado pela luz da lanterna... O sofrimento do sujeito que se sente paralisado é profundamente dolorido, como uma lembrança do que não conseguimos; mais importante ainda, do que sentimos que não podemos conseguir e que a inibição é como o resultado de um compromisso onde não devo conseguir algo porque alguma coisa ruim pode acontecer como uma espécie de retribuição punitiva ao triunfo. Triunfo que consistiria em poder viver sem medo. O medo inibitório é um pagamento antecipado, como a hipocrisia, ritual para não deixar nascer quaisquer possibilidades de saída do circuito viciado da relação com os fantasmas que nos imobilizam. Sofrimento em tributo a figuras que habitam nosso psiquismo, a inibição parece dizer: não se preocupe comigo, não lhe ofereço qualquer risco, portanto não há porque se virar contra mim... Medo antecipado com a função paradoxal de sentirmos medo sempre para não ter que sentir certo medo muito específico, conhecido e repudiado pelo sujeito em sua historia emocional. Em outra oportunidade espero falar um pouco mais desses temas. Por hoje importa marcar o embuste das inibições que funcionam como pagamento de tributos de medo ao outro, com o intuito de não precisar sentir medo! Que medo específico é esse que faz com que não seja caro pagar o preço das inibições? Voltamos em outro momento.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
HÁ O INCONSCIENTE
HÁ O INCONSCIENTE
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
Qual a importância do apontamento feito pela psicanálise a respeito da existência do inconsciente? No que a formulação do inconsciente por Sigmund Freud teve tamanha importância cultural, a ponto de grande parte das melhores mentes do século vinte ter sido profundamente influenciada pela psicanálise, e isso não somente entre aqueles que viriam a se tornar analistas, mas principalmente nas artes, literatura, pintura, filosofia, entre outras afeitas ao, de alguma forma, dizer sobre o humano. O inconsciente, sem dúvida, já havia sido tematizado de muitas formas pelo pensamento humano, principalmente pela filosofia, mas em um sentido que podemos chamar de descritivo, marcando o inconsciente como algo a que falta a luz da consciência, mas que de muitas formas pode se tornar consciente, como se a diferença entre o consciente e o inconsciente fosse da ordem de uma intensidade de luz que iluminasse em determinado momento os conteúdos do psiquismo. A grandeza do empreendimento freudiano foi conseguir dar a todo um conjunto de especulações milenares sobre o inconsciente toda uma articulação dentro da estrutura da mente humana absolutamente original. Em outras palavras, mostrar não somente a existência de um campo do psiquismo que ultrapassa de muito a consciência, mas mapear seus modos de funcionamento e ação sobre a consciência humana, mudando imensamente a imagem do humano sobre si mesmo, tendo um impacto de ressonância cultural em várias áreas do pensar e do fazer humano que certamente não pode ser subestimado... Dessa forma a psicanálise oferece todo um estatuto à idéia do inconsciente articulado na totalidade do psiquismo como um estranho, algo do que o psicanalista francês Jacques Lacan já denominou em um neologismo como uma espécie de “extimo”, como algo que nos habita, marca de nossa mais profunda intimidade, mas paradoxalmente também como algo para além, exterior, de nossa familiaridade, do que possamos integrar ao conjunto do chamamos nossa personalidade. Assim o inconsciente em psicanálise carrega a marca de uma estranheza de si, de um se desconhecer e estranhar, de um outro em nós que parece trazer de forma condensada toda uma história do que em nossa experiência nos constituiu como sujeitos humanos; outra cena de nós mesmos que apreendemos apenas em uma relação de aturdimento, de um não saber pensar sobre o que se passa. Passa no sentido do que nos afeta, do que nos atravessa, porque essa é nossa experiência do inconsciente, de um não poder falar sobre, de uma falta em algo... O inconsciente em psicanálise nos coloca de frente a uma imagem do humano como tributário de uma afirmação já poderia certamente nos intrigar, na medida da existência de uma historia outra do sujeito que o condiciona em seu sentir e pensar. História outra? Que história é essa? E que história é essa da psicanálise em buscar nos dizer de uma história outra que nos atravessa? Não se trata, como estou buscando argumentar, de uma história que apenas desconheço, mas que me é estranha, que não reconheço como minha e repudio de alguma forma. Isso faz toda a diferença! O inconsciente no modo como a psicanálise o formula traz assim a história de minha história com o outro, com as relações que constituíram minhas formas de estar, ou não, em minhas relações na vida e com a vida... Há o inconsciente! Busco apontar com essa expressão a imensidão de um psiquismo tributário de uma história que nos ultrapassa e que nos convoca em muitos momentos. Convoca na forma de um sofrimento que é em última instância a memória desse outro, de nossa relação com um passado que não passou. Há o inconsciente significa o campo a partir do qual não mais podemos falar de nós. Algo em nós talvez ainda possa, nesse há!...
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
September 25 SE APENAS POR UM INSTANTE...SE APENAS POR UM INSTANTE...
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
-Pudéssemos imaginar que somos seres de mistério, sempre convidados à tarefa de percorrer o campo de nossos enigmas. Que nesse caminho concebêssemos a possibilidade de que podemos ser mais do que pensamos ser, e nessa experiência de ser reconhecêssemos o outro como condição fundante de nossa subjetividade. -Perceber que em nós a presença de um inconsciente dinâmico nos coloca sempre em plena abertura ao fluxo da vida, em seu imprevisível devir, em sua sempre renovada possibilidade de nos surpreender, surpresa e estranhamento primeiro e fundamentalmente conosco mesmos. -Valorizar a vivência um tanto atordoante de um estranhamento em relação a nós mesmos, na esteira do que tal estranhar nos possa mostrar imagens diversificadas do que somos. -Aprendêssemos que nossa busca sempre repetida por uma imagem fixada do que somos nos encaminha rumo à psicopatologia, porquanto tal esforço visa barrar em si a angústia da experiência de um tempo psíquico que articula, no encontro com o acontecer atual da vida, vários registros de reminiscências do passado, projetando futuros possíveis à dinâmica de nosso desejo... -Tivéssemos um sentido de responsabilidade em relação a nossas vidas, não buscando nos alienar a promessas de felicidade empacotada vinda de milagrosas poções sempre cada vez supostamente mais modernas, que nos libertassem do percurso em busca de uma singularidade que ninguém pode nos presentear ou, ainda mais importante, autorizar... -Imaginássemos, e é sempre importante podermos lembrar que somos seres que por mais que façamos não escapamos à capacidade de imaginar, que nosso caminho não está pronto e o destino já decidido; que somos capazes de agir intervindo no mundo e nas relações com o outro; que somos capazes de fazer alguma diferença na medida em que algo de nossa própria diferença possa se colocar para nós mesmos; talvez assim possamos deixar de nos encontrar com o desolador sentimento de superfluidade de si em um mundo que nos aparece como pronto e loteado, onde nada mais há a se pensar e agir. -Deixar de lado a idéia de que nossa felicidade pessoal possa estar em uma busca desenfreada de um conjunto de estimulações que visam repor a manutenção de um corpo alerta, visto modernamente como fonte de uma felicidade que sempre acaba por se tornar algo que persegue o sujeito. Estranho paradoxo moderno esse de uma busca de felicidade que se torna uma disciplina obsessiva e que tem no corpo o alvo. No campo moderno da felicidade sensorial, corpos de revista e cadáveres adquirem uma estranha irmandade, um comum pertencimento de nascença cultural... -Encontrássemos nos paradoxos e equívocos do encontro amoroso algo que pudesse se colocar como a imagem de uma redenção, em um mundo no qual as possibilidades de vivência amorosa são solapadas pelo imenso temor frente ao ridículo de si; mundo no qual Fernando Pessoa e suas “ridículas cartas de amor” não mais teriam lugar frente ao desencanto com o outro e o modo como ele é visto em termos de fonte de sofrimento. -Apostarmos na imensa capacidade humana para a criação do novo impensado e inconcebível, no sentido de alimentar nossa crença de que em algum momento, em algum lugar, alguém possa estar fazendo algo que nos mostra e destrói nossa imagem de fixidez de um mundo humano pronto e acabado. -Deixarmos de apostar na saída cínica como a única possível, no sentido de nos proteger e não permitir que percebamos que temos uma profunda demanda pelo outro; saída que tem na arrogância sua marca, fazendo do outro uma imagem apenas enquanto violência potencial contra si ou objeto passivo de desprezo que impossibilita relações... -A fala pudesse ser algo com que nos implicássemos, não fazendo de nossa relação com as palavras algo vazio, sem nossa própria implicação no que dizemos e ficamos por dizer, fazendo com que nossa crença nas palavras seja algo parecido com nossa relação com um caixa eletrônico bancário, em que a linguagem presentifica um outro ao qual pagamos um tributo para não o encontrarmos... -Para além do narcisismo que nos incita a acreditar que amanhã eu faço, porque um amanhã com certeza eu terei, na medida em que não concebo como o mundo possa ter existido sem mim antes de meu nascimento e fico preocupado com seu destino após minha morte, eu possa ver que minha vida e meu sofrimento estão inseridos em um campo simbólico frente ao outro no qual ocupo um certo lugar, lugar esse que articula meu destino afetivo em uma rede que me atravessa e que me precede. -Eu pudesse crer que meu leitor pudesse pensar com algum carinho no que aqui busco transmitir, sem a tarja desqualificante de um sonho passadista em um mundo que nunca existiu ou nunca pôde existir; frente a um mundo hoje onde nossa imagem de um pragmatismo eficaz nos hipnotiza como a única coisa capaz de nos trazer alguma realização... Caberia assim perguntar, realização de que? De nossa renúncia e temor ao risco da inserção de nossa singularidade no mundo e com o outro?
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise psicossomática@gmail.com nucleotavola@gmail.com
A SOLIDÃO DO PÂNICO
A SOLIDÃO DO PÂNICO
LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES
A experiência do pânico tem tido uma freqüência que não deixa de nos intrigar. O que vem se passando para que a pronúncia da palavra pânico venha ocupando lugar de destaque nas descrições dos sujeitos de suas vivências na atualidade. Quais seriam os componentes culturais e psíquicos ligados a essa experiência? Parece que os relatos da vivência de pânico envolvem algo de uma profunda solidão, que sempre marca também a relação com os fantasmas que nos habitam, fantasmas esses que descrevem em última instância a presença do outro em nós. Em outras palavras, falar da relação com nossos fantasmas significa algo ligado a um nos remeter a um outro tempo, não de uma perspectiva cronológica, mas de um tempo remanescente, reminiscência viva da presença de relações que se ancoram no que Freud se refere de modo amplo como o infantil. Com esse termo o fundador da psicanálise buscava apontar para a presença contínua em nossas vidas de moções, formas de vínculos primevos e objetos que fundaram, em sua singularidade, a subjetividade de cada um de nós. Podemos perguntar o que isso tudo tem a ver com o tema que propusemos da solidão associada à vivência do pânico. Porque falamos da solidão ligada ao pânico? A experiência de solidão frente às reminiscências de nosso infantil é diferenciada no sentido do desamparo que a acompanha e nos paralisa... No processo de vir a ser humano a que chamamos subjetivação, somos constituídos e atravessados por uma complexa teia de significados postos pela cultura, enquanto ambiente onde tal processo se desenrola. Nesse ambiente, o encontro com o outro é condição fundamental para a subjetivação do sujeito. No entanto, o encontro com o outro acontece mais precisamente em torno do enigma em que se constitui para o sujeito o encontro com o desejo do outro, em outras palavras em qual lugar somos postos pelo e no desejo desse outro... Busco com essas considerações oferecer um panorama sobre o papel desse outro na subjetivação do sujeito, porquanto penso ser fundamental abordarmos um pouco mais a importância do outro no psiquismo no que diz respeito a definirmos melhor a especificidade da solidão na vivência do pânico. Como assim? Nossa formação enquanto humanos inseridos em um campo cultural é sustentada pelo que em psicanálise chamamos sistema de ideais. Por sua vez, o sistema de ideais é, por assim dizer, herdeiro de todo um campo de ação daquelas reminiscências que mencionamos acima, sendo portanto constituído em seu cerne pela presença do outro. Dessa forma o sistema de ideais é a marca, por aquela presença, da cultura no sujeito humano. Em mais de uma vez, Freud nos diz da importância do investimento amoroso, em termos das condições de criação e sustentação da confiança do sujeito no outro e no mundo humano. O pânico nesse sentido se coloca no momento mesmo em que, por vários motivos, se rompem os campos de possibilidade de relações amorosas com o outro. As possibilidades e as formas de vínculo amoroso do sujeito são determinadas pelos fantasmas inconscientes que constituem o cerne do sistema de ideais, do que podemos depreender assim que as bases da vivência de pânico estejam em absoluta dependência da forma vigente de relação do sujeito com seu sistema de ideais. Podemos imaginar a profunda importância psíquica do sistema de ideais enquanto, em sua ligação com a cultura, possa promover o encaminhamento das complexidades de nossa relação com nossos fantasmas. Do contrário, vislumbramos algo da angústia que pode nos inundar quando esse sistema tem problemas ao encaminhar pelas vias simbólicas da cultura o que nossos fantasmas fizeram de nós, nos levando a um encontro sem sua mediação eficaz com a experiência da impotência e do desamparo, solidão com toda a tonalidade de fragmentação e destruição de si.
Luís Henrique Milan Novaes Psicanalista Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
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